segunda-feira, 15 de novembro de 2010

A Moda no Universo das Visualidades

POR
Ruth Pereira Soares
Verusca Barroso Lages


Um olhar reflexivo sobre a apropriação crítica e dialógica no uso da imagem como elemento de persuasão.

A proposta desse ensaio parte da premissa de que a moda não deve, arbitrariamente, ser vista apenas como um “objeto” de banalidades, uma vez que, na contemporaneidade, a moda torna-se um objeto/conceito interativo e híbrido.
Pelo modo como vemos a estética no cotidiano, passando pelo conceito do corpo e pela adoção de estratégias visuais nas campanhas publicitárias que usam, literalmente, a imagem como um agente de persuasão, a sociedade atem-se à forma em detrimento do conteúdo das representações.
Sendo assim, a problemática da moda em relação às visualidades, mais precisamente sobre a imagem em si, está em compreender em quais aspectos a arte é capaz de influenciar o universo da moda e em como isto de expressa.
Em qual sentido a moda pode ser considerada uma vertente das artes? Qual impacto a linguagem do “vestir” gera na contemporaneidade? Quais elementos culturais e históricos estão representados na imagem das roupas? O que aquilo que vestimos diz sobre a personalidade de cada um? Como se fazer entender diante daquilo que usamos? A personalidade de cada um pode ser interpretada mediante aquilo que ele usa? A maneira de vestir das pessoas é uma forma e manifestação artística e cultural? Como os termos Moda e Sustentabilidade que soam antagônicos podem se interagir?
Vimos presente esses questionamentos durante curso da disciplina Arte Contemporânea. Através da representação dessa dialética nos filmes assistidos “A Costura do invisível” e “Meninas de Sinhá” conseguimos captar a necessidade da fuga da massificação seja da moda expressa em vestimenta ou comportamento e seus elementos de criticidade.
Em “A costura do invisível” o velho questionamento da arte e do produto, do mercado-produto e o que determina o valor de uma idéia. A exploração da jornada da materialização da imagem, a busca do enxergar além da forma pelo estilista para apresentar sua obra e se comunicar através da mesma num único e rápido instante, porém retratado e mitificado pela reprodução de suas imagens. Uma forma de eternizar a moda através de um ato efêmero.
Em “Meninas de Sinhá” retratando o cotidiano de pessoas comuns e sem aparente perspectiva sócio – culturais dentro deste universo, mas que, entretanto, conseguem mostrar a sua capacidade de se expressarem e de resgatarem do caos. Mulheres com mais de 50 anos, moradoras da periferia de Belo Horizonte, que a partir do caos de suas vidas geraram uma nova maneira de viver construíram um estilo de ser, vestir e viver valorizando as cantigas de roda e a simplicidade da vida.
No cursar da disciplina também sentimos a necessidade de uma melhor visualização do entendimento da pedagogia das imagens dentro do campo da Moda. Ela tem um grande desafio à frente, pois se seu sucesso depende em incentivar as pessoas a descartarem o velho pelo novo como criar uma lógica menos consumista e mais ecologicamente responsável? Para isso, designers apostam na exclusividade de seus trabalhos, materiais e processos alternativos como também atribuir-lhes mais significados em meio à crise do meio ambiente. Daí a importância de uma abordagem pedagógica que busca explorar os significados da imagem para esta forma de arte efêmera. A performance que titulava a Coleção Outono –Inverno apresentada no Palácio das Artes consolida bem esse conceito imagético. Ações que misturem formas e contextos para fazer com que as pessoas não somente vistam roupas, mas que percebam que, “se vestir” é também uma forma de se comunicar, uma forma de usar o corpo para se fazer entender e expressar.
Para Lipovetsky (1989), a moda é o espelho da sociedade, sendo possível ser pesquisada em qualquer lugar: nas ruas, em uma exposição de arte, em reportagens diversas ou nos costumes e hábitos de uma cultura.
Pensando nisso e na questão das ruas como uma grande passarela, encontramos a definição de Villaça e Góes (2001) onde ele coloca que a arte provoca um campo criador em que o espectador também e chamado a interagir, a se engajar e participar dessa ressonância. Não é um campo autônomo, mas atravessado por fluxos sociais, éticos e políticos.
O significado e a função da imagem, para o autor, dentro do contexto social são, portanto, de grande importância, uma vez que uma das características da moda é ser sinalizadora de tendências estéticas e comportamentais prevalecentes em cada época vivida pela humanidade. Além disto, também é amplamente utilizada como uma das ferramentas fundamentais de impacto na persuasão das variadas ideologias ao longo da história.
O que aproxima as artes visuais da moda propriamente dita é o fato de que ambas possuem a finalidade de despertar algo do outro, algo a ser contemplado pelo outro que se diferencie na massificação visual. A roupa, assim como as artes, tornou-se adereço. Ela deixou de servir apenas para cobrir o corpo e passou a ser também uma forma de se expressar, uma forma de se apresentar e se posicionar socialmente. Contudo, não se trata de equiparar o sistema estético da moda com o das artes, mas sim, de buscar alternativas de reflexões que as coincidam.
Argan (2004) cita que a arte, por vezes, pode ser interpretada como atividade humana realizada, mais precisamente, por artistas, que está ligada a manifestações de ordem estética, a partir da percepção, emoções e idéias, com o objetivo de estimular essas instâncias de consciência em um ou mais espectadores. Trazendo esse conceito para o campo da moda, podemos dizer que a estética pauta todo trabalho do estilista. Ao pensar em uma coleção esse profissional define tema, cartela de cores, tipo de tecido e padronagem. E, a partir de conceitos, idéias e emoções cria modelos para serem usados e incorporados no dia-a-dia das pessoas.
Ainda Argan (1988) cita que a arte implica sempre em uma crítica do passado e uma projeção para o futuro impedindo a generalização de um comportamento mecanicista e alienante. Na moda também encontramos isso. Os grandes estilistas sempre criam tendências, rompem e ditam conceitos, relêem velhas estéticas e apresentam em suas coleções posturas vanguardistas.
Contrapondo a esse pensamento da moda como arte encontramos Mello e Souza (1987) e alguns outros pensadores, que defendem a teoria de que por ser a moda um fenômeno que lida com a efemeridade, torna-se sensível às mais leves transformações do gosto. Outros a questionam como arte sobre o pretexto dela ter se transformado em uma sólida organização econômica e que seus elementos artísticos estariam relegados a segundo plano.
De fato, tais problemas existem, uma vez que são decorrentes da junção “moda e industrialismo”. Porém em nada, ou quase nada, afetaram-na como arte, pois a moda não é a única manifestação estética que se apóia na propaganda ainda segundo o mesmo autor.
Exemplifica-se o citado pela análise do processo de lançamento de uma peça de teatro ou um filme de cinema, no qual é preparado uma atmosfera emocional com objetivo de assegurar o sucesso através da mídia propagandista. Este meio é apenas uma forma de ligação entre o produtor e o consumidor de arte e, sendo assim, não a afeta de modo essencial. “Como qualquer artista, o criador de moda inscreve-se num mundo sensível, dentro do campo das artes e por isto mesmo depara-se com problemas de equilíbrio, de volumes, de linhas, de cores, de ritmo assim como um escultor ou um pintor no processo de desenvolvimento de suas obras” ressalta Mello e Souza (1987).
A industrialização, assim como, atualmente, o fenômeno da globalização, proporciona a vida efêmera da arte. No entanto, elas continuam ligadas às correntes estéticas e a uma linguagem artística em uma época de pluralidade de gêneros atuantes.
Em suma, o ensaio proposto visa abordar a temática da moda sob um ponto de vista artístico que se faz ressoar em todo e qualquer processo criativo. Além disto, procura, ainda, adotar uma posição reflexiva onde o conteúdo da imagem envia mensagens não apenas descritivas, demonstrativas, mas também estratégicas, através de seu impacto e de sua persuasão.
No vasto universo que se propõe uma reflexão crítica e dialógica discute-se como articular através da arte a linguagem. Isso, recorrendo-se aos repertórios diversos do processo criativo, no intuito de fornecer à Moda, os novos recursos da contemporaneidade que certamente colaboram ou colaborarão com seu hibridismo característico.

BIBLIOGRAFIA

ARGAN, Giulio Carlo, Imagem e Persuasão: ensaios sobre o Barroco. São Paulo: Cia das Letras, 2004.
ARGAN, Giulio Carlo. Arte e crítica de arte.Lisboa: Editorial Estampa, 1988.
LIPOVESTSKY, Gilles. O império do efêmero: a roupa e seu destino nas sociedades modernas.São Paulo: Cia das Letras, 1989.
SOUZA, Gilda de Mello e.O espírito das roupas: a moda do século dezenove.São Paulo: Cia das Letras, 1987.
VILLAÇA, Nízia; GÓES, Fred. Nas fronteiras do contemporâneo: território, identidade, arte, moda, corpo e mídia.Rio de janeiro: Mauad, 2001.

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